quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

 não está nem aí para a nossa relação”. E o que é que ela vai querer fazer a seguir? Interessar-se por outro rosto, por outro carinho, por outro corpo. Preocupa-te apenas quando ela se calar porque, enquanto ela falar, fica sabendo que ela está do teu lado."

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

(carta de uma mãe ao mundo)
O mais irritante nos filhos nem é chorarem quando nascem; é fazerem-nos chorar quando nascem.
Se não fosses tão bonito, eu, agora que peguei em ti ao colo pela primeira vez, não choraria assim. Não pensaria em tudo o que, mesmo que tu tenhas acabado de nascer, já vivemos juntos. Não pensaria no quanto te desejava, desde sempre. No quanto te desejámos desde sempre. És o filho mais querido do mundo, ficas desde já a saber. E o mais bonito também, disso não restam quaisquer dúvidas. Todos os filhos são os mais bonitos do mundo, e se termos essa certeza absoluta em cada um de nós não servisse para salvar o mundo então que acabassem com este mundo de uma vez.
O mais irritante nos filhos nem é serem giros; é eles saberem que são giros.
Se não fosses tão bonito, eu não estaria agora a abraçar-te quando tu bem sabes o que eu deveria estar a fazer. Olhas para mim com esses olhos, pedes perdão por mais uma asneira que fizeste, desta vez partiste a cama ao saltares lá em cima (“vamos fazer de conta que é um trampolim”) com o teu amigo Edgar, o teu amigo de sempre. E eu perdoo-te, como é impossível não perdoar quando és todo assim, impossível de não ser perdoado. Mas vê lá se ganhas juízo e passas a ser bonito e com juízo, fazes hoje seis anos e está na hora de começares a ser um homenzinho. Não cresças no que faz sonhar, por favor, e se crescermos em tudo menos no que faz sonhar não servisse para salvar o mundo então que acabassem com este mundo de uma vez.
O mais irritante nos filhos nem é serem donos da nossa vida; é deixarem de ser donos da nossa vida.
Se não fosses tão bonito não tinhas encontrado uma mulher tão bonita, e tu só merecias mesmo esta. A tua mulher. Parece que tem o segredo da tua felicidade no interior do olhar. E eu só de saber que a amas assim já a amo tanto. Já não precisas de mim e tenho de o aceitar, tens a tua vida e resta pouco para te ocupares da minha. Eu cá andarei, sabendo que me queres bem e eu te quero bem. Às vezes ligo-te e digo-te que te amo, tu às vezes ligas-me e dizes-me que me amas. Às vezes apareces e quero que o abraço que dás à chegada dure para sempre, mesmo que saiba que vai mesmo durar para sempre, quando fecho os olhos ainda o sinto, o abraço é aquele que se sente quando se fecha os olhos, nada mais. És o melhor filho do mundo, o mais atencioso. Dás-me tudo o que podes e amas-me como podes. Continua assim, é uma ordem, e se amarmo-nos todos como podemos não servisse para salvar o mundo então que acabassem com este mundo de uma vez.
O mais irritante nos filhos nem é serem lindos de morrer; é terem de nos ver morrer.
Se não fosses tão bonito saber que estou a ir não iria doer tanto. E olhares-me assim, com esses olhos profundos nos meus que aposto que já estão vazios. O fim do caminho nota-se pelo olhar, eu sei. Já fui tantas coisas mas o que nunca deixei de ser foi tua mãe. E se me perguntassem o que tinha sido na vida eu teria respondido sem hesitar: mãe do meu filho. Vou descansada, feliz até. Ficas em boas mãos, em boa vida. A tua mulher continua a mulher mais linda de todas, tu continuas o menino mais lindo de todos, as rugas ficam-te bem, meu sacana, vê lá a tua sorte. Agora deixa-me ir, eu estou bem, descansa, deixa-me ir em paz e vê se tratas bem da vida que te resta, e se tratarmos todos bem da vida que nos resta não servisse para salvar o mundo então que acabassem com este mundo de uma vez.
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terça-feira, 15 de novembro de 2016

(carta de um adulto ao mundo)
Continuar todos os dias faz chorar.
O passado sobrepõe-se, teimoso, e damos por nós a perceber que já não somos crianças, que já não somos sequer jovens. O tempo passa e leva-nos com ele. Ganhamos tanto e fica sempre a sensação de que perdemos tanto também. A vida prossegue e o corpo prossegue. Tudo a caminho do final. E nós no meio, perdidos, a cabeça sem saber se é corpo se é alma.
Viver todos os dias é maravilhoso e não deixa de ser horrível.
As responsabilidades apertam, comprimem. Quanto mais cresces menos podes cair. Menos há margem para queda. Um adulto é sempre uma criança com excesso de responsabilidades. Com excesso de obrigatoriedades. Uma criança é feita para cair, um adulto é feito para se levantar. Todos os dias levantar. Perde-se o emprego e tem de se levantar. Perde-se um amigo e tem de se levantar. Perde-se uma oportunidade e tem de se levantar. Perde-se tudo e tem de se levantar.
Levantar todos os dias magoa.
E o cinzento estrangula. Coloniza. Integra-nos inteiros. Distraio-me um segundo e já estou nele: completamente cinzento, uma malha absurda de mais-ou-menos, uma teia irrespirável de meia-felicidade-meia-infelicidade. A rotina contagia – mas contagia porque não consegue contagiar. A rotina contagia pela incapacidade de emocionar, de mover, de abalar. Repetir apenas o irrepetível: eis o que temos de procurar.
A emoção todos os dias corrói mas não ter emoção todos os dias mata.
Ontem era jovem e tinha todos os sonhos do mundo; hoje sou um quase-velho e tudo o que consegui foram quase-sonhos. Já fui feliz. Claro que já fui feliz. Já consegui abraçar, beijar, amar. Mas sabe sempre a pouco. Viver sabe sempre a pouco. E há dias em que viver sabe a demais. Dias em que é urgente deixar de viver. Time-out. Standby. Ficar apenas por ali, a olhar de fora para dentro de nós; tentar entender o que somos, o que queremos. No fim, tudo continuará na mesma e nada ficará como dantes.
Tudo continuar na mesma e nada ficar como dantes todos os dias cansa.
Sou um adulto e não sei quem sou: eis a única declaração possível. Eis a única verdade possível. Quero ser a criatura mais feliz do mundo e lutarei até ao fim dos meus dias para isso. Mas talvez seja isso, essa fúria de felicidade, essa luta imparável, que me impede de ser feliz. Talvez queira demais ser feliz. Talvez ame demais, talvez exija demais. Mas só o que é demais não é erro.
Há dois dias era um puto e dentro de dois dias sou um velho: aqui jaz um adulto. Os adultos têm muito a perder e é por isso que se perdem. Perdem-se no que querem ter e esquecem-se do que já são. A vida, para um adulto, é aquilo que acontece enquanto estão a pensar no que é a vida. Um adulto está no pico de tudo e raramente consegue sair do chão.
Pensar na vida todos os dias aborrece.
Os adultos são uma seca. Eu sou uma seca. E o pior é que sei que sou uma seca. Sei que já não tenho a paciência que tinha para aguentar o que tenho de aguentar. Sei que poderia rir mais, que poderia tentar mais, que poderia voar mais, que poderia amar mais. Mas falta-me juventude para isso. Falta-me coragem para isso. Penso no que posso perder e abdico do que posso ganhar. Os adultos são uma seca. Os adultos são uns bananas.
Ser banana todos os dias arrelia.
Sou um adulto e sou feliz: quantas vezes o dissemos – e sentimos - mesmo?
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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

(os cinco erros que deves cometer numa relação)
SER FRACO: sente tudo, mesmo que com medo. Sentir é o melhor erro que podes cometer. O mais delicioso. Sentir é a melhor maneira de viver. Sê frágil porque é apenas humano ser frágil. Não queiras ser o mais forte do teu bairro, o mais forte da tua rua. Não queiras ser herói. Sê tu. Sê extravagante o suficiente, sê maluco o suficiente, sê inconsciente o suficiente: vai pelos sentidos, vai pelas emoções. Não tentes escapar, não tentes fugir; resolve o que sentes em ti.
Não sejas quadrado.
SER INCOERENTE: o amor não é sempre coerente – e ainda bem. Não sejas obsessivo acerca disso. Relaxa. A coerência que se dane. É mais importante, muito mais importante, a criatividade. Sê criativo. Todos os dias. Demencialmente. Sê capaz de encontrar novos caminhos em cada novo momento: escreve uma carta de amor, faz um jantar excêntrico, encontra sempre novas maneiras de fazer as velhas coisas de sempre. Erradica a monotonia.
Não sejas quadrado.
SER LUNÁTICO: não evites o risco, não evites a utopia. Tenta pelo menos o impossível, o intangível. Tenta a tua sorte: procura-a, escava em busca dela, trabalha por ela, faz tudo por ela. Sonha grande e faz com que sonhem em grande contigo. Amor sem sonho não é amor. E vida sem amor não é vida.
Não sejas quadrado.
DISCUTIR: discutir é lutar pelos teus sentimentos, lutar pelo que queres, lutar pelo que te parece melhor. Em nome do amor. Só em nome do amor. Nunca em teu nome pessoal. Nunca por egoísmo bacoco. Nunca por orgulho. Nunca por casmurrice. Nunca porque não queres perder. Nunca porque queres ficar por cima. Nunca porque queres ficar com crédito. Nunca porque queres que te fiquem a dever uma. Nunca porque queres ter razão. Nunca porque tens a mania que sabes tudo. Nunca. E sempre. Sempre para amares e seres amado. Discute com quem amas sempre que necessário – mas sempre com cimento e cola e tijolos na mão: sempre para construir. Amar é construir. O amor é levantado sobre a capacidade de discutir sem destruir. Às vezes é difícil, terrivelmente difícil. Mas um amor que acaba sem discussão não é um amor falhado; simplesmente não é um amor.
Não sejas quadrado.
CHORAR: todos os amores têm os seus maus momentos, todos os amores têm momentos em que parece que todo o edifício vai ruir insuportavelmente. Nesses momentos, chorar deve ser feito: chorar tem de ser feito. Para abrir a válvula: para deixar a dor sangrar. Para que o tempo passe, para que a pressão acalme, para que o que dói acalme também. Deixa que acalme, sem pressas. Só assim poderás voltar a construir. Chora quando chorar tem de ser; deixa o teu amor chorar quando chorar tem de ser. E faz-te homem (daqueles homens que interessam: os que choram, claro; os que não têm medo de chorar porque felizmente se estão nas tintas para os velhos e jovens do Restelo que têm medo de chorar, que têm medo de deixar de ser homens sempre que choram: enfezaditos coitaditos, não são?) com cada lágrima.
Não sejas quadrado.
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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O mais doloroso nem é saber que levas outra pessoa para a cama. Estou-me, se queres que te diga, realmente nas tintas para isso. O mais doloroso é saber que tens outros ombros para pousar a cabeça.
Fomos felizes tantas vezes, já te disse. E no entanto quando olho para trás entendo com nitidez que o que mais fica, o que mais nos fica, é a dificuldade e o que fizemos com ela. E foi aí, quando algo faltava, que nunca nos faltou nada. Quando dói o que não se consegue é só o amorque consegue.
O que junta as pessoas é aquilo que se consegue quando dói o que não se consegue.
Amar é também uma questão de confiança: da confiança que nos dá. Alguém que se sente amado, verdadeiramente amado, é alguém indestrutível. Sente em si uma força imparável, um herói por dentro de si. Contigo nada temia, contigo tudo era ultrapassável. Até que chegou a preguiça.
O que junta as pessoas é conseguir reagir quando chega a preguiça.
Fomos desaparecendo. Cada vez mais confortáveis e cada vez mais distantes. O conforto afasta, repele: integra. E o amor não é para ser integrado. E agora és de outra pessoa e eu não sou de ninguém. Talvez um dia consiga voltar a dormir com alguém, voltar a entregar o meu corpo a alguém. Mas as minhas lágrimas dificilmente deixarão de ser tuas.
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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O mais doloroso nem é saber que levas outra pessoa para a cama. Estou-me, se queres que te diga, realmente nas tintas para isso. O mais doloroso é saber que tens outros ombros para pousar a cabeça.
Fomos felizes tantas vezes, já te disse. E no entanto quando olho para trás entendo com nitidez que o que mais fica, o que mais nos fica, é a dificuldade e o que fizemos com ela. E foi aí, quando algo faltava, que nunca nos faltou nada. Quando dói o que não se consegue é só o amorque consegue.
O que junta as pessoas é aquilo que se consegue quando dói o que não se consegue.
Amar é também uma questão de confiança: da confiança que nos dá. Alguém que se sente amado, verdadeiramente amado, é alguém indestrutível. Sente em si uma força imparável, um herói por dentro de si. Contigo nada temia, contigo tudo era ultrapassável. Até que chegou a preguiça.
O que junta as pessoas é conseguir reagir quando chega a preguiça.
Fomos desaparecendo. Cada vez mais confortáveis e cada vez mais distantes. O conforto afasta, repele: integra. E o amor não é para ser integrado. E agora és de outra pessoa e eu não sou de ninguém. Talvez um dia consiga voltar a dormir com alguém, voltar a entregar o meu corpo a alguém. Mas as minhas lágrimas dificilmente deixarão de ser tuas.
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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

(é a vida que nos separa)
Tudo começa com uma televisão ligada. E depois vem um computador, um jogo, um jantar de amigos. Aos poucos o mundo afasta quem se ama. Houve demasiado mundo a separar-nos, e nem o refúgio final de uma cama conseguimos preservar.
Amo-te por não ser capaz de te amar mais.
Ocupamos os mesmos espaços para sermos capazes de nos separar, na mesa onde nos olhamos a pedir que alguém nos salve, nas mãos que agarramos à espera de que a paixão aconteça. Tudo começa com uma paixão que não acontece. E chega a maturidade, a besta da maturidade (e a estabilidade: quão besta pode ser a estabilidade?), à procura de apagar os fogos que já se apagaram há muito. Pensa-se que amar é aquilo, a partilha fúnebre, a sujeição silenciosa, a violência de uma repressão assistida.
Amo-te o suficiente para deixar de te querer.
Fomos derrotados porque somos pessoas. Percebemos que seremos amantes impossíveis para podermos amar-nos para sempre. E o único amor que não morre é o que não se pratica. O hábito faz o fim – não o monge. Os corpos gastam-se e nunca vão sozinhos. E se me pedirem para escolher entre desistir e perder eu escolho desistir. É só assim que jamais te perderei.
Amo-te para sempre e nunca mais te quero ver.
Deixa-me que te beije (os teus lábios: como esquecer que foram os teus lábios que me ensinaram a viver?) para nunca mais te beijar, que te abrace para nunca mais te abraçar. Deixa-me que te ame. Para para sempre te amar.
Amo-te até que vida nos separe.